PERSPECTIVAS DE UMA HISTÓRIA LITERÁRIA: ESBOÇO DE UM QUADRO TEÓRICO
Luis Alberto N. Alves - UFRJ
A década de oitenta manifestou diversas dúvidas quanto à possibilidade de uma história literária. De um modo geral, as iniciativas deveriam restringir-se à revisão de autores conhecidos e/ou à (re)descoberta dos não canônicos. A mudança acompanhava, por certo, a saraivada de críticas às metanarrativas e à metafísica desferidas por Lyotard e Derrida. Embora precariamente explicitada, esta convicção baseava-se nas variáveis política e ideológica, reforçadas após o fim dos regimes socialistas. Passada uma década, é preciso admitir que as condicionantes são bem outras, o que nos obriga a relativizar a longevidade daquelas certezas.
Em todo caso, conformando-se aos novos imperativos teóricos, passava-se a encarar com reservas, para dizer o mínimo, qualquer tentativa de historicização, associada imediatamente aos cacoetes do passado e, portanto, passíveis de serem descontruídos, conforme a terminologia então hegemônica. A reprimenda parece ter tido êxito, pois os livros de história literária ficaram restritos às reedições ou a uma ou outra tentativa de repercussão limitada.
Como vamos tratar adiante das perspectivas que se abrem a uma eventual história da literatura brasileira de um ponto de vista contemporâneo, penso que nada melhor do que retomar uma passagem, por muitos já repisada, e que tanta celeuma vem causando, na qual Antonio Candido, no prefácio da 1a edição de sua obra de 1959, propunha uma distinção entre as literatura de países novos, como o Brasil, e as do velho mundo. Dizia ele:
Há literaturas de que um homem não precisa sair para receber cultura e enriquecer a sensibilidade; outras, que só podem ocupar uma parte da sua vida de leitor, sob pena de lhe restringirem irremediavelmente o horizonte.
“A nossa literatura é galho secundário da portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem no jardim das Musas ... Os que se nutrem apenas delas são reconhecíveis à primeira vista, mesmo quando eruditos e inteligentes, pelo gosto provinciano e falta do senso de proporções. Estamos fadados, pois, a depender da experiência de outras letras, o que pode levar ao desinteresse e até menoscabo das nossas[1].
Conforme já dissemos, a distinção vem sendo alvo de ataques. Não estaria embutido nela um preconceito contra a literatura brasileira e mesmo a portuguesa? Com base em que coeficiente crítico tal diferença se justificava? Não ocorreu a ninguém, no entanto, que ali contivesse o germe da natureza intrinsecamente comparativa da formação, que Candido deslindaria nos ensaios dos aos 70 e 80, quando trataria de outras épocas e autores. É de se estranhar que alguns leitores considerem démodé a posição defendida em 1959, preferindo, quem sabe, a do tipo prêt-à-porter. Paradoxalmente, o reproche vem associado a uma outra dedução não menos arbitrária: o livro descreve um projeto nacional, logo o autor é nacionalista[2]. Voltaremos a esse ponto.
Ora, ninguém discute que se trata de um clássico que divisa nossa historiografia, embora a assertiva venha acompanhada invariavelmente do juízo, nem sempre explícito, vale dizer, de que estamos diante de um intelectual pretérito, cuja obra deve dormitar numa empoeirada e remota estante. É nesse contexto que ganha força uma nova objeção: a obra é datada. Não vai longe o tempo em que datar uma obra significava apanhá-la no seu campo de forças, naturalmente em perspectiva histórica[3]. A conotação hoje já é outra. Uma obra datada é aquela incapaz de prover o conhecimento, entendido na nova acepção como fluxo e refluxo de teorias disponíveis vindas dos centros prestigiosos e submetidas ao ritmo do regime de trocas. Desse risco Candido escapou ileso, como deixa clara a passagem seguinte:
Ao descrever os sentimentos e as idéias de um dado período literário, elaboramos freqüentemente um ponto de vista que existe mais em nós, segundo a perspectiva da nossa época, do que nos indivíduos que a integraram. Para contrabalançar a deformação ... é conveniente um esforço de determinar o que eles próprios diziam a respeito; de que modo exprimiam as idéias que sintetizamos e interpretamos[4].
Não obstante, o passar dos anos vem acrescentando outras restrições: seqüestrou o barroco? é uma obra integradora? esconde debaixo da manga o quadro teórico em que se movimenta?[5] Estas alegações vêm acompanhando a leitura de Formação. Vale lembrar que Afrânio Coutinho foi o pioneiro na crítica da noção de sistema literário, alegando que ela excluía o barroco. A crítica era dirigida à suposta falta de brio nacionalista de Candido, que entregava de mão beijada parte de nosso patrimônio literário aos portugueses. Nesse caso, somos forçados a dizer que as objeções hoje são outras sem deixarem de ser as mesmas. Com o seguinte adendo: os sinais agora estão trocados. Candido seqüestrou o barroco por empenho nacionalista e ímpeto metafísico. Ler a obra hoje implica em arrancar uma a uma essas fantasmagorias. Creio que os dois autores que examinaremos adiante ajudam a entender melhor a dimensão do problema, muito maior que uma leitura à primeira vista dá a entender.
Em seu estudo, originalmente tese de doutoramento, João Hernesto Weber revisita um tema hoje caro ao pensamento literário brasileiro: a construção da nacionalidade na historiografia literária brasileira. A pesquisa é ambiciosa, pois intenta descrever um processo de longo curso, iniciado com os românticos, passando por Machado de Assis, Sílvio Romero, José Veríssimo, chegando às sínteses (a expressão é do autor) dos anos 50 e 60 propostas por Afrânio Coutinho, Antonio Candido e Nelson Werneck Sodré. O empreendimento não pára por aí. O autor descreve com minúcia o debate que se seguiu nos anos 70, marcado pela retomada do ensaísmo explicativo, se bem que de um ângulo distinto do da geração de Candido, Afrânio e Sodré. O projeto vai na contracorrente do senso comum, que vê com reservas os relatos de intenção totalizante.
Resumidamente, "a nação foi conquista daqueles que a fizeram, os literatos”, espécie de “Força-tarefa' ... das classes dominantes, [que] estabeleceram uma história de continuidades a resultar, necessariamente e sempre, na 'nação"[6]. Passando por cima da descrição minuciosa que faz desde os românticos, concentro a análise em sua interpretação de Candido. Para Weber, este não deixa de participar desse esforço, se bem que no contexto do fim do Estado Novo e das possibilidades abertas pelo desenvolvimento industrial, acrescido pela retomada da democracia com o fim da Segunda Guerra Mundial. Segundo lhe parece, o livro de Candido é produto dessa nova correlação de forças, na qual os paulistas começavam a mandar. É o que se lê na passagem seguinte:
é o caso da Formação da literatura brasileira, de Antonio Candido, que nos anos quarenta elaborava uma visão integradora da literatura brasileira, em consonância com a Aufklärung paulista que construíra a USP, mas que, depois, visitado pelos terríveis anos 70 (de que, de uma forma ou de outra, somos todos herdeiros), 'desconstruiria' a sua própria história[7].
Em princípio, o autor parece afinar-se com as objeções correntes ao fixar o foco em "como se constituíram os diferentes discursos sobre a nacionalidade literária", anotando que o discurso que a visa padece de uma espécie de pecado de origem. Mas não é o caso. Todavia, conceber Formação "como expressão do projeto 'ilustrado' da burguesia paulista, que criara a USP, patrocinara a vinda de uma nova 'missão francesa', e se situava na contramão do nacional-populismo" é talvez vender barato demais a matéria. O fato de ser paulista (Como sabemos, Candido nasceu no RJ, mas se diz mineiro por temperamento e paulista por formação intelectual) não significa necessariamente que tenha endossado o “projeto 'ilustrado' da burguesia paulista”. Será que seu antigetulismo confesso o torna caudatário da burguesia paulista? Como é possível conciliar a equação: como historiador é nacionalista, como homem público é antinacionalista? Afinal, é preciso escolher, pois não dá para ser as duas coisas ao mesmo tempo. Muito parecido com o que vimos atrás em relação aos seus críticos, o que mostra como Candido tem desarvorado seus intérpretes.
A propósito, vale a pena transcrever uma observação feita pelo próprio Candido, a propósito do pensamento radical gestado na USP naquela ocasião. Diz:
A partir do decênio de 1930 ele [o pensamento radical] foi a primeira formulação coerente, em nível institucional, da classe média progressista, que deste modo se exprimiu, não como cupincha da oligarquia, mas como categoria autônoma. Para muitos isso parecerá ridiculamente pequeno-burguês. Mas em perspectiva histórica é muito ponderável e positivo, porque significa a radicalização da classe média nas instituições culturais, com todo o deslocamento para a frente que isto implica em relação às posições tradicionais[8].
O senso de relativo de que Candido costuma se fartar dificilmente é acompanhado por seus críticos. Ora, se a restrição não cabe bem no criticado, talvez fosse o caso de perguntar se os equívocos não estão nos críticos. É apenas uma especulação.
Retomando o fio da exposição, Weber parece convencido de que "as diferentes histórias literárias se articulam ou se articularam como projetos constitutivos da própria nação e nacionalidade literária”, de modo a atuar “mais como discursos fundantes do nacional do que propriamente como expressão reflexa da nação ou 'nações".
Ora, a passagem anterior mostra como o direito de colonizar passa a ser reivindicado obsessivamente pelos paulistas. Weber, seja dito de passagem, não é propriamente contra a construção da nacionalidade; reage sim à ideologia falaciosa que impôs a visão da corte ao resto do país. Conquanto não tenha entrado por essa seara, sou capaz de afirmar que ele intui a marcha da desintegração – muito óbvia hoje –, argüindo que nação é essa que deseja falar pelo país? Na medida em que o desmonte do patrimônio público corre em ritmo vertiginoso, a suspeita da construção da nacionalidade na historiografia literária já não assusta tanto. Lembrando que a tese foi defendida em 1994 e provavelmente sua redação é de bem antes. Assim, como falar hoje de nação? O que dirá de paraíso? Vejo no livro uma espécie de proto-história daquilo que me parece justo trazer à discussão. O mérito do autor é indiscutível. Voltarei adiante ao ponto.
Passo agora à outra intervenção. Num ensaio instigante e de rara acuidade, Luís Augusto Fischer[9] descreve, e avalia, o horizonte de que dispunha Candido entre as décadas de 40 e 50, período em que redigiu Formação da literatura brasileira. Na ocasião, lembra Fischer, João Cabral e Clarice Lispector estavam apenas debutando; o mesmo se pode dizer de Guimarães Rosa cujo Sagarana havia aparecido em 1946 e Grande sertão: veredas viria a lume somente em 1956, há dois anos apenas da publicação do primeiro manifesto da poesia concreta. E mais: a música popular não gozava do prestígio que só viria adquirir uma década depois. No plano da teoria literária, o mercado dispunha do impressionismo, espécie de moeda corrente da qual se serviam os críticos, amadores e diletantes, nos Suplementos Literários; da sociologia científica, leia-se positivismo; e do marxismo oficial, que gravitava na órbita da ortodoxia partidária. O new criticism era o que havia de mais recente, já que tanto o estruturalismo como o formalismo russo só chegariam mais tarde. Levando-se em conta as ofertas de hoje, bem mais sortidas, é preciso admitir que os resultados alcançados só aumentam a façanha de Candido, que, vale dizer, não precisou apoiar-se na autoridade de um método, mas tão somente na força de seus achados e argumento.
Fischer ajuda a restituir o ambiente de gestação da obra, ao mesmo tempo que deixa em evidência o anacronismo de parte das críticas dirigidas a Candido. Entre parêntesis, não será um mero acaso que os historiadores de profissão já tenham detectado o equívoco. Fernando Novaes tem chamado atenção para os riscos do anacronismo. “Pois não podemos fazer a história de um período como os protagonistas que a viveram soubessem que a colônia iria se constituir no século dezenove num estado nacional”[10]. Reatando, os achados de Fischer não param por aí. Os melhores momentos são aqueles em que exerce uma verve combativa, sobretudo quando cobra o poder material de São Paulo, na figura de nada menos que Mário de Andrade, apontado, não sem provocação, como “carrasco do Brasil”. “O modernismo brasileiro, como Mário, tem importância hipertrofiada nos estudos literários nacionais”. A formulação seguinte é irretocável:
tivemos ao longo de todo o século, o Modernismo, o Modernismo e o Modernismo, tudo isso antecedido apenas por um estágio embrionário do mesmíssimo Modernismo. Da situação encontrada por Antonio Candido no fim dos anos 50, em que o Modernismo não existia, passamos à situação em que só ele existe[11].
Desafiando o senso comum segundo o qual “a história da cultura nacional parece ter ali um ponto de inflexão de infinita relevância” [12], Fischer arranca o véu que encobre a face do modernismo e revela o combate sem tréguas deste à “mentalidade parnasiana (nefelibata, palavrosa, acadêmica)”, que, em última análise, traduzia a luta “contra a hegemonia do Rio no panorama mental brasileiro”[13]. O Rio de Janeiro, como sabemos, fixava, e ainda fixa, uma imagem de nação que não corresponde à real e, já naquela época, de 1932 em diante, não era do agrado dos paulistas. É por aí que Fischer vaza seu inconformismo com o poder institucional e material de São Paulo, que, para facilitar a exposição, usa a USP como pólo de convencimento. Daí dizer que “São Paulo fala pelo Brasil, como Mário falou pelo Brasil. O resultado é que, em boa medida, a nossa voz foi roubada”[14]. Em outro lugar, será até mais incisivo:
O certo é que a atual hegemonia paulista(na) no cenário nacional, no campo da cultura pelo menos, tem demonstrado nenhum apetite para assumir a dívida moral que tem para com o país, nem para pagar o preço pela concentração absurda de recursos materiais e humanos[15].
Tal como havia percebido João Weber, o argumento de Fischer tem o mérito de nos mostrar como a ideologia da colonização (o termo é meu) troca de mãos, sendo repatriada em São Paulo depois da década de trinta. Com efeito, a cultura modernista e a industrialização pós-30 fazem do século XX o século paulista. O poder que o Rio de Janeiro outrora possuía fica reduzido agora a uma simples reminiscência, só ampliada depois de perder a prerrogativa de capital da República, em 1960.
O convite a repensar o ponto de vista da formação é a outra frente em que o ensaio de Fischer atua. Constata, para começo de conversa, a inapetência do debate contemporâneo para a descrição de processos formativos: “Para dizer de modo breve, parece que não há mais apetite para montar, de forma consistente, um relato de tipo histórico que dê conta da literatura brasileira, especialmente daquela surgida entre nós nos últimos 50 anos”[16]. As tentativas ambiciosas de Caio Prado Jr., Sérgio Buarque de Holanda e Celso Furtado, que ensaiavam uma explicação global do país, foram postas para escanteio. No lugar, impôs-se um discurso fragmentado ou topicamente orientado. Lembro, de passagem, uma observação certeira de Hobsbawn ante a preferência pelos estudos sincrônicos nos historiadores das mentalidades. Dizia então:
Não há nada de novo em preferir olhar o mundo por meio de um microscópio em lugar de um telescópio. Na medida em que aceitemos que estamos estudando o mesmo cosmo, a escolha entre micro e macrocosmo é uma questão de selecionar a técnica apropriada. É significativo que atualmente mais historiadores achem útil o microscópio, mas isso não significa necessariamente que eles rejeitem os telescópios como antiquados[17].
O historiador inglês chamava atenção para a condenação compulsória das leituras totalizantes, como se isso conduzisse diretamente ao totalitarismo. No mesmo diapasão, Fischer mostra como a falta de um “horizonte internacional que legitime qualquer aspiração a leituras de conjunto” tem incutido novos preconceitos muito dos quais de rara sofisticação. Uma “falência reforçada pela acachapante força da globalização dos mercados” como se estivesse “aparentemente superado o horizonte nacional”, anteriormente tomado “como medida das coisas da literatura” e que na falta deste nos leva a deduzir “a inviabilidade de uma história da literatura brasileira”[18]. Eis a questão.
Entrando diretamente na matéria: “como se pode, nos termos deste final de século e segundo as variáveis brasileiras do tempo, postular uma descrição histórica da literatura brasileira do século que finda? Que coisas será preciso levar em conta? Que vigência podem ainda ter os pressupostos do método historiográfico e o método mesmo?”[19] Respondendo diretamente ao autor, e pensando na pertinência de se partir do legado da Formação, sustento a necessidade de se ampliar o leque de interlocução, assimilando, obviamente não sem crítica, as experiências regionais acumuladas e rediscutindo o escopo sobre o qual a perspectiva da formação deverá incidir. E aqui, é preciso contabilizar mais um ponto a favor de Fischer, que tão agudamente percebeu na música popular e na linhagem das memórias duas vertentes dignas de integrarem o novo acervo a ser historiado.
Recapitulando: 1) nos últimos 30 anos a historiografia literária não se fez notar; 2) a historiografia quando ainda se fazia notar dividia-se entre Antonio Candido, de um lado, e Afrânio Coutinho e os concretistas; 3) a baixa da historiografia literária brasileira se deve, em boa medida, à crise do legado socialista e à vitória da lógica do mercado. Apanhadas assim, essas variáveis “dão forma concreta àquela crise (da História), que apenas na aparência é de método”[20]. Concordo com o primeiro e o terceiro pontos, ao passo que considero importante flexibilizar o segundo, uma vez que as mesmas razões aventadas para explicar o domínio paulista, são extensivas ao Rio de Janeiro, o que nos leva a relativizar a exclusividade bandeirante. Paulistocracia e cariocracia são duas faces da mesma moeda. Assim,
O que se pode pensar neste momento a respeito de tal situação, especificamente a respeito da possibilidade de uma história da literatura brasileira agora, depende, em medida principal, do modo como se leiam os fenômenos atuais, tanto os amplamente culturais como estritamente literários, isso sem mencionar os fenômenos econômicos e políticos. Digamos que se trata de firmar o pé numa leitura consistente da conjuntura, como forma de ancorar a postulação por uma história da literatura brasileira neste século. Leitura que deve tomar a peito a tarefa de enunciar, ainda que provisoriamente, as variáveis a partir das quais vai pensar o século a literatura[21].
Admitindo a centralidade de São Paulo, em vista de sua força material e institucional; admitindo que esta base tenha possibilitado a entronização do modernismo e a ascensão de Mário de Andrade à papa do movimento e metro do que fora feito e do que viria doravante a acontecer; considerando também de uma perspectiva contemporânea que a idéia de formação, com as variáveis que vão da cultura à mundialização dos mercados, continua pertinente e atualíssima, é preciso admitir, paradoxalmente, que o maior obstáculo à sua retomada crítica decorre precisamente da região, em que essa tradição se originou e fixou seu modo de expansão, isto é, através de editoras, da mídia e dos programa de pós-graduação, aos quais acorreram estudantes e professores de vários pontos do país. De outra parte, é preciso historiar também a resistência iniciada com a chegada do estruturalismo na década de setenta, e reforçada pela constituição do partido da desconstrução nos anos 80 e 90, que fez do Rio de Janeiro (não exclusivamente) sua trincheira, desautorizando “a validade da unidade ‘nação’ como critério razoável de qualquer pesquisa”. O quadro é conscientemente esquemático, mas, seja como for, não tergiversa ante um movimento que não parecerá demais descrevê-lo, mesmo que exagerando nas tintas.
Voltando ao Fischer, é bom lembrar que a perspectiva é de esquerda e não abre mão do passo globalizante. Ademais, parte da premissa que Candido é ponto de partida, e não de chegada. Assim sendo, como dar o passo a frente, enfim? Creio que em primeiro lugar nacionalizando e, num certo sentido que não discutirei aqui[22], internacionalizando a noção de sistema literário desenvolvida por Candido em 1959. Isso significa, como já dissemos, ampliar o leque de interlocução, que passa pela assimilação das experiências locais, não como uma retomada do(s) regionalismo(s), mas como a aceitação serena de que as experiências locais existem e devem ser levadas em conta, quando se pretende falar da nação substantivamente.
Um último comentário: desconfio que a pouca, ou nenhuma, repercussão dos trabalhos de que nos ocupamos decorre precisamente da falta de iniciativa do eixo em admitir que há vida inteligente em outras regiões. Talvez aí resida a cifra do colonialismo interno de que procurei tratar neste trabalho. Não poderia querer melhor demonstração da pertinência de meu ponto de vista. Em suma, é ou não é para falar ainda da nação? E qual é a nação de que nos interessa falar?
Referências Bibliográficas:
FISCHER, Luis Augusto. Para fazer diferença: ensaios. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1998.
______ Para uma descrição da literatura brasileira no século XX. In: Luiz Eugênio Véscio e Pedro Brum Santos (Orgs.). Literatura e História: perspectivas e convergências. Bauru, São Paulo: EDUSC, 1999.
WEBER, João Hernesto. A nação e o paraíso: a construção da nacionalidade na historiografia literária brasileira. Florianópolis: Editora da UFSC, 1997.
[1] Antonio CANDIDO. Formação da literatura brasileira. Belo Horizonte: Itatiaia, 1986, vol. 1, p. 9.
[2] Roberto SCHWARZ. “O setes fôlegos de um livro”. In: Seqüências brasileiras: ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
[3] Remeto o leitor ao excelente estudo de Pierre VILAR intitulado “O Tempo do Quixote”, no qual afirma, logo de saída: “Os centenários têm a vantagem de nos recordar que as obras-primas têm uma data”. In: Desenvolvimento econômico e análise histórica. Lisboa: Editorial Presença, 1982.
[4] Antonio CANDIDO. Formação da literatura brasileira, vol. 2, p. 285.
[5] Haroldo de Campos, Luiz Costa Lima e Silviano Santiago, respeitadas as diferenças, têm insistido nessas críticas.
[6] João Hernesto WEBER. A nação e o paraíso, p. 17.
[7] Ibidem.
[8] Antonio CANDIDO. Brigada ligeira e outros escritos. São Paulo: Editora da UNESP, 1992, p. 235.
[9] Cf. Para uma descrição da literatura brasileira no século XX. In: Literatura e história: perspectivas e convergências.
[10] Confira do autor Condições da privacidade na Colônia. In Laura de Mello e Souza (org.). História da vida privada no Brasil. vol. 1, São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 17.
[11] Op. cit., p. 108.
[12] Op. cit., p. 164.
[13] Ibidem.
[14] Op. cit., p. 165.
[15] Op. cit., p. 168.
[16] Luis Augusto FISCHER. Para uma descrição da literatura brasileira no século XX. In: Luiz Eugênio Véscio e Pedro Brum Santos (Orgs.). Literatura e História: perspectivas e convergências. Bauru, São Paulo: EDUSC, 1999.
[17] Eric HOBSBAWN. Sobre História. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 206.
[18] Op. cit. p. 100.
[19] Op. cit. pp. 103-104.
[20] Op. cit. pp. 104-105.
[21] Op. cit. p. 109.
[22] Podem ser lidos nessa direção: Angel RAMA. “El sistema literario de la poesia gauchesca”. In Poesia gauchesca. Venezuela: Ayacucho, 1977. (Devo a sugestão do “trabalho das pastagens” de Rama a Leandro Sarmatz). Moretti, Franco. Modern epic: the world system from Goethe to Garcia Márquez. London; New York: Verso, 1996; Atlas of the european novel 1800-1900. London; New York: Verso, 1998.